“Assistimos nos últimos anos à captura da máquina administrativa do Partido por uma fracção de membros (…) responsáveis pela erosão da Frelimo”.
A activista social e membro sénior do Partido Frelimo, Graça Machel juntou-se ao grupo de críticos do Partido que pedem uma reflexão imediata sobre toda a “tragédia eleitoralista e governativa” que abala o Partido Frelimo e Moçambique nos últimos tempos. Através de uma missiva que rapidamente viralizou nas redes sociais e nos órgãos de comunicação social, Graça Machel diz que “é urgente a realização da reunião de quadros para reflectirmos em colectivo sobre a vida do partido”.
Leia na íntegra a missiva da antiga primeira-dama de Moçambique e África do Sul.
Eu sou membro do partido Frelimo por opção, consciência e convicção. Tal como eu, são milhões de membros, cerca de quatro milhões, com ou sem cartão, e atrevo-me a adicionar os simpatizantes, que comungam os valores de liberdade, democracia, unidade nacional, paz, igualdade, solidariedade e justiça social, assentes nos Estatutos que regem a organização.
Por inércia, inacção a complacência, nós, os milhões de membros da Frelimo, assistimos, nos últimos anos à captura da máquina administrativa do Partido por uma fracção de membros, responsáveis pela erosão e desvirtuamento da razão e sentido de ser da Frelimo.
Deixamos de implementar o princípio Unidade, crítica e unidade que sempre nos guiou, e relegámos parte da máquina administrativa do Partido a um grupo de interesse com agenda própria, que age em nome da Frelimo, mas contra a própria Frelimo.
Os quadros permitiram que se confundisse o Partido com essa parte da máquina administrativa infiltrada por um punhado de membros com compromissos contrários aos nossos Estatutos e Programa. Nem todos os membros que compõem a máquina administrativa da Frelimo traíram o Partido, mas a influência da fracção a que me refiro levou a que se perdesse o sentido da família, a ideia de que a Frelimo são todos os seus membros e de que a máquina de direcção, toda ela, serve os interesses da organização no seu todo.
Daí se explica o desfasamento entre a gestão do Partido e os milhões de membros, assim como as dificuldades da Frelimo em continuar a ser, no mapa político, um Partido das massas, aglutinador, que capta e transforma em agenda de trabalho as demandas, necessidades e sentimentos do povo moçambicano.
A inércia, inacção e complacência dos quadros permitiu que, na sociedade moçambicana, se gerasse e consolidasse a narrativa de que a Frelimo, o nosso Partido, é formado por ladrões assassinos e arrogantes. É de extrema importância e urgência desfazermo-nos deste descalabro e resgatamos, como milhões de membros e simpatizantes, a verdadeira identidade da Frelimo, a sua história, as suas tradições e as suas práticas.
É urgente resgatarmos o nosso DNA. Como militante subscrevo a proposta, veiculada por alguns camaradas, de realização de uma Reunião Nacional De Quadros, para, em colectivo e de forma aberta, reflectirmos sobre a vida do Partido e abrirmos novos caminhos para recuperar a confiança, credibilidade, respeito e a química com o nosso povo. A soberania e manutenção da Frelimo residem nos seus membros. Vamos sacudir a inércia, inacção e a complacência. Vamos assumir a nossa militância!
A fase crítica que o Partido atravessa impõe-nos, como milhões de membros, humildade, para assumirmos responsabilidades e reconquistarmos a legitimidade perante o nosso povo.
A humildade a que me refiro passa necessariamente por reconhecer os erros cometidos pela Frelimo e, se necessário, pedir desculpas ao povo; passa por nos distanciarmos do grupo minoritário que assaltou parte da máquina do partido que age em sentido contrário à sua história, suas tradições e suas práticas; passa por reconhecer e aceitar as vitórias onde ganhamos honestamente e reconhecer aceitar honestamente as derrotas onde as houver.
Vamos assumir a nossa militância! Está em causa a nossa sobrevivência como Frelimo – o partido do Povo.
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